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A Copa dos Desacreditados

By 14 de junho de 2018 Sem comentários

 

A Copa dos Desacreditados

 

É instigante pensar como as coisas mudam aqui no Brasil. Em 2002, mesmo após um forte apelo popular e da imprensa, Felipão deixou Romário de fora da Copa do Mundo e colocou um fio do bigode na promessa de voltar com o Penta.

O fim dessa história todo mundo que gosta de futebol sabe: Ronaldo Cascão, Rivaldo voando, Denílson fugindo dos quatro ex-otomanos, Ronaldinho encobrindo o goleiro inglês e, claro, a tão emblemática cena da cambalhota vampetística em frente ao presidente (gesto que guia até hoje a mente daquele sociólogo em busca da resposta: “Por que ele fez aquilo?”).

As pessoas que antes criticavam Felipão queimaram a língua e passaram a elogiar o mais famoso passo-fundense (que me perdoe Teixeirinha; até porque ele nasceu em Rolante, a capital Nacional da Cuca e do melhor pastel do mundo – olha o merchan, Pastelaria Zanata).

Naquele ano, a internet engatinhava. Apenas 9,1% da população mundial tinha acesso à net, ficando, em média, 46 minutos por dia conectado. As maiores redes sociais ainda não existiam e correntes de e-mail com ursos desejando bom dia estavam em processo de criação com hackers russos escondidos nas montanhas geladas da Chechênia.

A política nacional era, até certo ponto, estável e ascendente. A inflação continuava sob controle, as taxas de juro estavam em queda e havia a continuação de um pequeno superávit comercial, fatores que influenciaram a expectativa do povo pela Copa.

Ninguém se preocupava com o rumo que o país tomava toda vez que a deusa Ivete Sangalo avisava em tom profético baianês que ia rolar a festa. O brasileiro estava preocupado era mesmo com a Copa e em não rever um Zidane – até então com cabelo – escalar a área e meter duas buchas como em 98.

Os tempos eram outros. Saudades.

O mundo mudou nesses tempos. A comunicação também.

A internet avançou. O Orkut surgiu. O Orkut sumiu. Os ursos bonitos que vinham lá da região do Cáucaso direto para a caixa de entrada dos e-mails agora povoam grupos de famílias com 300 mensagens de “bom dia, amores”. Houve um 7×1 no meio do caminho, mas deixemos isso pra lá.

Outras plataformas surgiram, como o Twitter, talvez a rede mais emblemática e poderosa da internet. Isso porque ali o foco é no conteúdo e tudo é contado em tempo real e cronológico.
Como a Copa desse ano começa na próxima semana e o brasileiro é apaixonado por futebol, era de se esperar que o Brasil todo estivesse digitando ensandecidamente sobre a convocação, o canarinho pistola, qualquer coisa envolvendo o Neymar, Taison melhor que Messi e tantas outras questões importantíssimas do país.

Mas não, o brasileiro está desacreditado com a seleção. É o que aponta um levantamento feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/DAPP) – que nome lindo – dentro do Twitter.

Na última semana, entre os dias 29/05 e 05/06, apenas 2,3 milhões de pessoas mencionaram a seleção brasileira na rede. Enquanto isso, 4,8 milhões ficaram falando sobre a política do país, citando argumentos dos pré-candidatos à presidência, greve dos caminhoneiros ou corrupção.

É instigante analisarmos esses dados não apenas como uma revolta do povo frente à política do pão e circo – ou bola e craque – que funcionou na década de 70, durante a inflação da década de 90 e que deveria funcionar agora, nesse momento turbulento da nossa política.

Hoje a internet dá voz ao povo que não se contenta com o que as grandes mídias apresentam. E como gostam de falar de futebol. A Copa, embora seja o maior evento do mundo e o mais importante da galáxia (perdoem a empolgação), não vai apaziguar ânimos de uma sociedade que se vê desacreditada com os rumos políticos e sociais que o país vive atualmente. Isso ficou no passado.

E nós, como comunicadores, devemos acompanhar essas opiniões, entendendo as necessidades, absorvendo as mudanças e passando essas opiniões para clientes e público.

Se a pátria entra em campo de chuteiras, na arquibancada ela está de chinelo, olhando para o celular e torcendo para que o jogo de amanhã se transforme em uma grande vitória para o país.

 

 

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