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Apartheid de opiniões

By 28 de junho de 2018 Sem comentários

 

Apartheid de opiniões

Todo mundo já passou por isso. Começa com você decidindo expressar sua opinião sobre um assunto qualquer. Coisa básica, sem maiores pretensões. A pessoa com quem você conversa, obviamente, faz uma réplica. A tréplica é sua. Logo em seguida, seu interlocutor rebate, já mais exaltado. Você insiste no seu ponto de vista. Ele se agarra ao dele. O tom de voz aumenta. Ninguém consegue mais terminar uma frase ou um raciocínio, pois o outro não permite. Os ânimos se aquecem. Não demora para que comecem as agressões verbais de cunho pessoal. Pronto. Está escrita mais uma história sobre a intolerância de nossos tempos.
É fato: as opiniões extremadas estão entre os sinais mais representativos desta época na qual vivemos. A moderação praticamente desapareceu. Aquela figura intermediária, ponderativa, sensata, capaz de encontrar algo de bom de um lado ou de outro e disposta a compreender os motivos que levam alguém a discordar de suas ideias, essa criatura está em extinção. O que se vê hoje são defensores ferrenhos de um ponto de vista, militantes de uma ideia só, dispostos a criar inimizades, encerrar relações ou mesmo iniciar brigas com quem ousa pensar de modo contrário.

A consequência disso é o fim de algo fundamental ao nosso crescimento como sociedade: o debate de ideias. A troca de opiniões, especialmente quando essas se posicionam em pontos diametralmente opostos de um espectro, é vital para o desenvolvimento de uma civilização democrática e plural – como, supostamente, é esta na qual vivemos. A diversidade de visões de mundo gera maior tolerância e traz luz a questões que, a princípio, poderíamos não enxergar. Uma opinião contrária, muitas vezes percebida como recurso bélico, pode não ser combativa, mas complementar. O outro tem voz, e essa voz deve ser ouvida.

O problema primordial é que ninguém escuta mais; todos apenas esperam o seu momento de falar. O grande debate acabou, não apenas dentro do universo das pessoas comuns, mas também nos círculos mais elevados, de autoridades e intelectuais. Basta alguém expressar uma opinião que outro surgirá com o objetivo de diminuí-la – quando não o de atacar o próprio autor. Não é assim que se realiza uma discussão saudável. O verdadeiro debate, a troca de ideias que faz crescer, é aquela na qual se avalia uma opinião contrária, pesa-se o raciocínio por trás de tudo, escruta-se a validade de suas defesas e, apenas então, desenvolve-se um contra-argumento. Ouvir uma opinião com sete pedras na mão acrescenta tanto quando uma gota de chuva no oceano.

É errado entrar em uma conversa sobre qualquer tema, polêmico ou não, 100% seguro de sua posição. Obviamente, você deve acreditar naquilo que vai dizer e defender – e principalmente, deve estar preparado para fazê-lo –, mas também precisa estar aberto, minimamente que seja, a tentar entender a opinião do outro lado. Aquela pessoa pensa de forma contrária por algum motivo. Que motivo é esse? Você precisa entender que, sim, é possível estar errado e que o outro esteja certo. Precisa estar disposto, caso os argumentos contrários sejam melhores e mais consistentes do que os seus, e eles podem ser, a parar um pouco e pensar: “Talvez eu esteja equivocado”.

Para isso, porém, é necessário ouvir. É necessário, ocasionalmente, fechar a boca e escutar o outro lado. Não ouvir unicamente com a intenção de rebater, mas de compreender. Aferrar-se a uma ideia pode causar cegueira. Estar aberto a valorizar uma posição contrária, por mais que inicialmente ela pareça um disparate, pode ser intelectualmente muito saudável. Não podemos criar cercas de arame farpado em torno de visões distintas e de seus autores. Não podemos isolar quem pensa diferente de nós.

Fim ao apartheid de opiniões.

 

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