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O gol contra de Neymar

By 9 de agosto de 2018 Sem comentários

 

O gol contra de Neymar

 

A Copa do Mundo constrói vilões improváveis. Ou alguém diria, antes da bola rolar, que o atleta mais prejudicado pela competição na Rússia seria o brasileiro Neymar?

Nosso camisa 10 chegou à Copa, apesar da lesão sofrida poucos meses antes, com tudo a seu favor. O time de Tite estava bem entrosado, ele era a referência técnica absoluta do PSG e seu rosto estampava campanhas publicitárias em todo o mundo. Com mídia, talento e vontade de vencer, trazer o penta para o Brasil e alcançar seu objetivo pessoal de ser eleito o melhor jogador do mundo parecia barbada.

Mas, sabemos, não foi assim. O Brasil caiu (sem trocadilho) diante da Bélgica nas quartas de final e Neymar se tornou alvo de críticas. Não vou discutir seu futebol, nem mesmo a teatralidade que leva para o campo. Isso é opinião. Vou falar sobre fatos. E o fato inegável é esse: nenhum jogador das outras trinta e duas seleções saiu da Rússia com a imagem tão manchada quanto Neymar.

Ao final da Copa, o brasileiro não foi lembrado pelos gols ou atuações, mas por se jogar em campo e pelos exageros. Jornalistas especializados e ex-atletas de todo o mundo condenaram sua postura e sua falta de profissionalismo. Torcedores inundaram as redes sociais com piadas e memes sobre suas simulações de faltas e lesões. Surgiram desafios e games como o #neymarchallenge e o jogo on-line Neyboy Challenge. O ex-santista virou piada mundial. Uma gigantesca crise de imagem estava instaurada.

Compreensivelmente, Neymar se afastou da mídia após a Copa. No início desta semana, porém, reapareceu. Não em uma coletiva de imprensa, uma declaração gravada ou jogando futebol, mas em uma campanha publicitária. Em um filme de um minuto e meio para uma marca de produtos de barba, o jogador lia um texto cuidadosamente redigido pelo seu staff e pela agência, na qual dizia frases como “você não imagina o que eu passo fora de campo”, “ainda não aprendi a te decepcionar” e “ainda não aprendi a me frustrar”.

Pronto. O tiro no pé havia sido dado. A repercussão negativa foi imediata. Usuários do Twitter e redes sociais não demoraram a apontar que aquilo não se tratava de uma declaração sincera, mas de um comercial planejado. Não foi algo vindo do coração, um pedido de desculpas ou uma prova de amadurecimento, mas apenas um anúncio publicitário através do qual Neymar embolsou mais alguns milhões para sua já gorda conta bancária. Um discurso ensaiado, nada mais. Por mais que a intenção tivesse sido boa, o resultado foi o pior imaginado.

O que faltou para Neymar nesse momento foi algo essencial para a comunicação atual: a verdade. O público é muito mais inteligente hoje do que era há alguns anos. Ele sabe quando está sendo enganado e não cai mais em discursos vazios. Uma marca tentando passar uma imagem não condizente com as suas atitudes está fadada às críticas – e Neymar, mesmo que não se dê conta disso, é uma marca extremamente valiosa.

Ao agir daquela forma, ao transmitir sua mensagem em um anúncio, ao usar frases como as citadas acima, o jogador talvez buscasse a simpatia e compreensão do público, mas acabou apenas reforçando sua imagem de jogador mimado e imaturo, dissociado da realidade e despreparado para carregar a responsabilidade que tem. A imagem negativa da marca Neymar não foi dissipada, mas potencializada.

Foi um grande equívoco em termos de posicionamento e branding. Talvez tenha partido de uma avaliação errada da agência sobre como o público enxerga Neymar, talvez tenha sido uma percepção nublada do próprio Neymar e sua equipe sobre quem realmente ele é. O fato é que eles não compreenderam que não adianta mais tentar ludibriar o público. A honestidade e a sinceridade contam mais do que uma campanha milionária construída sobre mentiras ou palavras desprovidas de sentimento real.

Não sei como Neymar irá resolver esse problema de imagem. Porém, nesse caso, há uma lição a ser aprendida por nós, profissionais da comunicação: cair é normal. Mas, para se reerguer, é preciso ser verdadeiro.

Silvio Pilau
Redator

 

 

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