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O medo do novo

By 23 de agosto de 2018 Sem comentários

 

O medo do novo

 

Poucas coisas são mais raras do que uma ideia realmente original. Ideias simples, essas surgem toda hora. Ideias boas, também. Mas ideias originais, inéditas, únicas? Ideias capazes de oferecer visões novas, modificar percepções, sacudir o status quo? Essas, infelizmente, aparecem com tanta frequência quanto um cavalo marinho no deserto.

Há um grande motivo para isso: para se ter e colocar em prática uma ideia dessa estirpe, é preciso ir contra tudo o que é dominante. Sem exceção. Uma ideia verdadeiramente original é aquela que pega conceitos e noções definidos, arraigados no fundo da mente da sociedade, e consegue subvertê-los de modo totalmente inesperado. Uma ideia verdadeiramente original é uma mudança. E mudar é muito, muito difícil.

Nós, seres humanos, lutamos contra a mudança. Faz parte da nossa natureza. A teoria da evolução e da adaptabilidade das espécies do britânico Charles Darwin – por sinal, uma das ideias mais originais já surgidas em qualquer lugar ou tempo – explica isso: quando nossos ancestrais, há milhares de anos, começaram a se instalar em pequenas aldeias, eles descobriram que o conceito de estabilidade trazia vantagens. Ao invés de caçar, podiam plantar e criar animais. Ao invés de refúgio, tinham abrigo. Parar com a mudança constante da vida nômade era sinônimo de segurança.

Aos poucos, os nômades sumiram. E os “moradores” prosperaram. As aldeias tornaram-se vilas, depois cidades, civilizações, impérios. E o gene que associa estabilidade com segurança passou, de geração para geração, até nós. É natural, portanto, encararmos qualquer mudança com desconforto. Seja uma troca de emprego, uma viagem ao exterior ou simplesmente uma opinião diferente, a novidade vai contra a nossa natureza. Nada mais normal que um pouco de medo ou dificuldade de aceitar essa mudança. Está no nosso DNA.

Uma ideia nova, verdadeiramente original, vai exatamente na direção contrária. Muitas vezes, ela ainda exige virar as costas às próprias convicções, ao que se conhece, ao que é tido como senso comum. O impacto pode ser grande. O próprio Darwin, quando da publicação de sua obra clássica, sofreu isso na pele. Desconfiança, repúdio, críticas públicas. O cientista passou por dificuldades até que a sua ideia passasse a ser aceita. Foi preciso coragem, tanto para ele que expôs seu pensamento revolucionário quanto para os primeiros que o abraçaram como verdade.

Darwin, obviamente, não foi o único. Todo grande salto da humanidade tem por trás uma ideia original que bateu de frente com costumes e visões de sua época. Copérnico, Lincoln, Einstein, Martin Luther King. Todos precisaram de muita coragem e determinação para divulgar opiniões contrárias ao que era aceito.

Mas, sem isso, sem pessoas como essas, provavelmente ainda estaríamos nas cavernas. São as ideias novas que fazem o mundo caminhar para frente. Repetir o que já foi feito não traz evolução ou crescimento. Pode ser mais fácil, mais tranquilo, mais seguro e trazer menos riscos, mas não muda nada. As ideias que hoje são comuns e fazem parte do nosso cotidiano um dia chocaram. Abalaram. Muitas delas não foram aceitas de imediato. E, provavelmente, boa parte correu o risco de jamais ter sido divulgada.

O que precisamos é de um pouco mais de coragem. Não tenho dúvidas de que milhares de grandes ideias jazem inertes no fundo de gavetas, simplesmente por terem ousado sair da zona de conforto. Ideias geniais barradas pelo “Não”, o desanimador leão-de-chácara do conservadorismo. Precisamos entender o quanto um pouco de risco é fundamental. Precisamos de tomadores de decisão com a noção de que uma ideia diferente, em vez de ameaça, pode ser a solução. Precisamos de gente que saiba abraçar o que é novo e original. Gente que não tenha medo da mudança.

Pode ser difícil. Pode ser até mesmo contra a natureza humana. Mas pode, também, ser o diferencial que separa a mediocridade da grandeza.

Silvio Pilau
Redator

 

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