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Um salve à Rainha

By 16 de novembro de 2018 Sem comentários

 

Um salve à Rainha

 

No início do século, para ter acesso a novidades culturais no interior do estado era preciso estar no lugar certo e conhecer as pessoas certas. As relíquias adquiridas se tornavam parte do dono, que emprestava apenas após pagamento de um rim de propina ou de uma amizade verdadeira.

Não sei dizer exatamente qual dos motivos que levou uma VHS única chegar até a minha casa, mas sei que ainda tenho dois rins funcionando. O que era para ser um empréstimo de uma semana, perdurou por meses, anos, todo o sempre, visto que ela se perdeu em alguma mudança.

Sem capa ou encarte para informar do que se tratava, a caixa preta se diferenciava das outras embalagens com um adesivo lateral marcado com letra de médico: “Queen – Wembley”, além de uma rasura feita com tom ameaçador “Rebobine sempre”.

Informações precisas e que bastavam para o que havia nela.

Quem assistiu uma única vez o show de 1986 do grupo inglês não se esquece jamais. O auge de uma das maiores bandas de rock do mundo ficou eternizado em uma apresentação enérgica, empolgante e marcada por imagens simbólicas do que foi o Queen. O casaco amarelo usado por um Freddie Mercury bigodudo e encharcado de suor é uma dessas criações imagéticas feita em cima dessa grande orquestra de rock.

A habilidade com que o vocalista controlava o público, mesclando solos de voz, uma presença de palco e um microfone transformado em vareta para a regência dos compassos da música ficaram para a sempre na memória.

Vindo de duas apresentações memoráveis no Rock in Rio e no Live AID de 1985, a banda estava encerrando aquela que seria sua última turnê. A teatralidade de Freddie foi domada pelo HIV nos próximos anos, retirando sua vitalidade e o levando ao encerramento do seu maior show em 1991.

O fim do Queen deixou carente uma geração acostumada com composições dançantes e com experiências sonoras ecléticas. Durante anos as músicas da “Rainha” ficaram no saudosismo e, por que não, no ostracismo. Até que, em 2003, o lançamento do DVD do show no histórico estádio de Wembley trouxe à tona o poder da voz de Freddie, os solos distorcidos e marcantes da guitarra Red Special conduzida por Brian May, o baixo tímido e penetrante de John Deacon e a batida dançante de Roger Taylor.

Esse lançamento foi uma deixa para o Queen voltar a reinar entre nós. Bohemian Rhapsody virou uma música cult e cantada a plenos pulmões – principalmente a parte dos falsetes -, Don’t Stop me Now circulou em várias campanhas e até personagem inspirado em Freddy surgiu na TV aberta.

Para fãs que cresceram ouvindo a banda, nada mudou, mas, talvez, foi essa descoberta anos atrás que nos leva hoje ao cinema ver o filme sobre a vida de Freddie.

A cinebiografia do cantor estreou dias atrás e viverá para sempre, pegando a deixa da canção que embalou o imortal Highlander.

Bohemian Rhapsody mostra o lado desconhecido do astro dos dentes salientes, revelando uma mostra do ser humano que ele foi e dos seus sentimentos, fraquezas, desejos, erros e acertos.
É muito interessante essa mostragem da transformação do Queen em uma família, abrangendo as diferenças que construíram as músicas, os conflitos que abalaram as produções e tudo mais que envolvia o temperamento de quatro gênios.

Sobre o filme só há um comentário a ser feito: assista.

Não adianta comentar que a caracterização dos personagens está perfeita e que a escolha das músicas foi adequada a cada momento. Isso são apenas detalhes para a história de um homem quieto e introspectivo que liderou uma das maiores bandas em um dos maiores shows já realizados até hoje.

Aliás, o Live Aid é o grande marco temporal do filme. Metade do show é construído na película, com destaque para a coreografia feita por Freddie em 1985 e desenhada igualmente por Rami Malek, ator que que dá vida ao cantor com a mesma presença de palco e com uma técnica surpreendente na dublagem das músicas, sendo quase impossível de perceber que não é ele quem está cantando.

De tudo isso fica a construção de uma lenda que também era um ótimo comunicador e pensou nos mínimos detalhes a construção de sua imagem.

A extravagância de Freddie em sua performance, o ritmo teatral influenciado pela dança nos gestos, o domínio do palco e o controle de um público que sabia a hora certa de imitá-lo com palmas, com respostas ou em coro, principalmente em “Love of my Life”. Grandes marcas de um grande artista.

Isso já seria o suficiente para elevar o Queen a um patamar alto na história da música. Mas Freddie sempre quis mais. Ele assumia a dianteira na projeção do Queen vestindo uma pele de estrela do rock, misturando seu talento e originalidade com uma imagem estrategicamente elaborada.

Nem sempre ele teve o seu bigode característico. Nos anos 70, não tinha barba e usava cabelo comprido. Foi a partir dos anos 80 que seu cabelo diminuiu e o bigode aumentou. Há teorias que Freddie queria esconder os dentes avantajados, ou que desejava seguir a estética do machão, visto que abandonou os figurinos exorbitantes do início da carreira.

A grande verdade é que nada disso importa. O que tem relevância em toda a história do Queen é a marca que uma carreira marcada por talento, exorbitância, criatividade, rock, ópera e plateias conquistadas. Seja naquele adolescente que gastou um VHS de tanto assistir, ou nos jovens de hoje que compartilham memes com o braço de um Mercury levantado em uma clara referência à vitória, ao sucesso e à glória.

Marcas de uma vida que nunca deixou a coroa cair e que tem muito a ensinar quem deseja criar uma imagem positiva em cima de algum trabalho.

Emerson Santin
Redator

 

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