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O publicitário narcisista

By 3 de janeiro de 2019 Sem comentários

 

O publicitário narcisista

 

Tempos atrás, uma conversa informal com uma amiga migrou para um caminho que respingou nos pensamentos iniciais do novo ano: “estou pensando em transferir o meu curso e fazer publicidade. O que achas disso?”

No momento da fala, a troca de ideias foi superficial e o incentivo foi grande. Posteriormente, a empolgação se transformou em questionamento e uma reavaliação do que realmente nos tornamos após 4,5,6 anos de aulas cansativas, trabalhos maçantes e receber um diploma para apenas guardar em alguma gaveta.
Talvez não em determinados grupos que vivemos, mas cursar uma faculdade ainda é um privilégio de poucas pessoas. Fazer isso dentro do ensino superior público é mais restrito ainda. E se essa dificuldade de acesso é tão grande, por que tantas pessoas continuam procurando um curso que não aparece em nenhuma lista de profissões do futuro ou que não necessita de regulamentação para ser desempenhado?

A resposta, talvez, seja o glamour que ainda ronda o desenvolvimento de campanhas e o ambiente de agências. Na nossa formação, campanhas lindas e marcantes de décadas passadas instigavam esse desejo por criar, desenvolver, pensar. Tudo isso feito em um local lúdico, alegre e feito para o desenvolvimento de vídeos, jingles, textos, imagens, tudo.
É nesse desejo de desenvolver novas propostas que aparece outra situação inteiramente ligada ao trabalho dos publicitários: o narcisismo.

Narciso, o personagem da mitologia grega, vê seu reflexo em uma lagoa e se apaixona de tal forma que ali passa o resto da sua vida definhando. Na nossa profissão, o desejo pelo amor individual é um pouco diferente da história mitológica, mas sim, todo publicitário (sim, estou fazendo generalizações, mas é porque elas funcionam) tem um lado narcisista.

Há um individualismo dentro dos processos que acompanha o imediatismo e a celebração do culto à imagem, mesmo havendo pouco espaço para o criador aparecer. Então, envolvemos o desejo egoísta não na sobrevalorização de si, mas nas imagens e nos trabalhos realizados.

Temos orgulho cada vez que um trabalho vai para a rua. Mas mais que orgulho, temos vaidade. É a nossa imagem que é projetada em cada outdoor, é a nossa ideia, o nosso processo. Somos nós naqueles metros de texto e arte.

Mas há gente que não ache isso ruim. E de verdade, não, não é. O grande dilema é quando essa vaidade descontrolada e a admiração excessiva pelas suas ideias próprias gera problemas no indivíduo (publicitário), que necessita ser admirado e não admite que sua presença passe despercebida em determinado grupo ou em determinado trabalho.
A entrega é importante, mas o processo é o que permite que ela seja efetiva. Escutar novas ideias e parar de glamourizar apenas o que sai da própria boca, geralmente, se traduz em grandes resultados.

Um conselho que acompanhou os anos de decisão do curso era a grande possibilidade de fazer algo novo todos os dias. Claro, quem já viveu alguma experiência dentro da comunicação sabe que o dia a dia não é sempre diferente, mas que ele pode passar a ser quando saímos da nossa pequena e resistente bolha e passamos a entender mais o outro, a ouvir novas propostas, novas ideias, quando alimentamos a criatividade longe do espelho que nos afoga em nossos próprios medos e dilemas.

Emerson Santin
Redator

 

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