Featured

Este texto não é longo

By 25 de janeiro de 2019 Sem comentários

 

Este texto não é longo

 

Existem diversas coisas que eu não consigo compreender nesse mundo. A Teoria Geral da Relatividade, de Albert Einstein, é uma delas. Já tentei entender seus detalhes, mas não sou inteligente o suficiente para isso. Outra é o fato de que as pessoas amam gatos. Seres interesseiros, que visam dominar o mundo e fingem amor por seus donos apenas para serem alimentados. Não confio nos felinos. Mas há uma questão que supera todas as outras. Algo que, por mais que eu tente, não consigo aceitar: o fato de pessoas se orgulharem de não ler textos longos.

Isso não é de hoje, mas definitivamente ganhou mais destaque no mundo contemporâneo. A preguiça para a leitura cresceu exponencialmente em tempos regidos pelo Twitter, pelo Instagram e pelo Facebook, em que a atenção dos jovens se dispersa quando uma frase tem mais de 140 caracteres ou não vem acompanhada de uma imagem. É gente que lê de tudo um pouco, mas nunca muito sobre algo. A Geração Headline, que sabe todas as manchetes, mas cansa rapidamente antes de terminar um parágrafo.

Há, evidentemente, consequências para isso. Estamos caminhando para uma época formada por pessoas capazes de falar sobre variados assuntos, porém sempre de forma rasa. Opiniões ocas baseadas em pensamentos superficiais, de gente que não consegue se aprofundar em um assunto, seja ele qual for. Tudo isso leva a ideias vazias, posições com alicerces tão fortes quanto castelos de cartas, vindas de pessoas que, em função do alcance da Internet, acabam facilmente convencendo outros de suas opiniões preguiçosas e nada embasadas.

Em minha curta vida de redator/escritor/colunista/crítico, cansei de ouvir gente me dizendo: “Mas por que tu não escreve textos mais curtos? Não gosto de ler textos longos.” Bem, o problema é seu. Só tenho a lamentar que você acredite estar certo ao preferir ler um texto curto e rápido, no qual é impossível desenvolver uma ideia mais fundamentada sobre qualquer tema. Em segundo lugar, texto longo? Longo é “Guerra e Paz”, de Tolstói. Longo é “2666”, de Roberto Bolaño. Longo é o novo romance de Alan Moore, com 1 milhão de palavras. Um texto que você lê em cinco ou seis minutos, pode ter certeza absoluta, não é longo.

O ato da leitura exige, sim, esforço. Exige atenção, exige foco e exige, acima de tudo, reflexão. Claro que, muitas vezes, a correria do dia a dia nos deixa cansados e o que menos queremos é ler algo, especialmente que nos faça pensar. Mas o hábito de ler é como o hábito de ir à academia: a preguiça tenta falar mais alto, mas é preciso ignorá-la, pois os benefícios são muitos. E, quando menos notamos, estamos realmente apreciando aquele ato. Mais do que isso, talvez, sentimos falta quando ficamos algum tempo longe dele.

Não é fácil. Somos ensinados desde crianças a ver livros como sinônimos de chatice. Obrigar estudantes do Ensino Médio a ler obras que até mesmo adultos têm dificuldade de compreender é um desserviço à educação e a esse costume tão rico. O hábito da leitura é darwinista; ele evolui. É preciso começar aos poucos, com livros fáceis de serem digeridos, para criar o gosto das palavras em mentes jovens – é o valor inestimável do que J. K. Rowling fez com “Harry Potter”, por mais rasa que seja sua série. Quando a semente estiver plantada, o hábito se torna prazer. O texto “longo” vira curto.

E você ter chegado até aqui, até esta última frase, é prova disso.

Silvio Pilau
Redator

 

Voltar    Todas as notícias

 

Responder