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Deixe isso lhe matar

By 31 de janeiro de 2019 Sem comentários

 

Deixe isso lhe matar

 

Durante algum tempo, frequentei como convidado as tão comentadas e mal-afamadas festas no sítio de um jogador de futebol mundialmente famoso de Porto Alegre. Realizados inicialmente numa cidade bem próxima à capital, os eventos ocorriam em galpões preparados para receber shows de grande porte dentro do terreno do atleta. Eram dois espaços, um próximo ao outro, separados apenas por um belo campo de futebol, com grama em perfeito estado, holofotes para peladas à noite e tudo o que se espera que um jogador desse nível tivesse em sua casa.

Em uma dessas festas, notei que uma bola de futebol estava solta pelo campo, em um indício claro de que alguém havia disputado uma partida ali. Perguntei ao atleta anfitrião da festa:

– Vocês têm jogado bola direto?

– Eu, não – respondeu ele. – A galera joga bastante, mas eu não tenho participado.

Lembro dessa história sempre que vejo alguém questionando como um menino que deslumbrou o planeta, foi eleito duas vezes o melhor do mundo e entrou para a história como um dos grandes de todos os tempos tornou-se um jogador burocrático e sem inspiração. Lembro dessa história porque ali está a resposta para essa pergunta: ele simplesmente parece ter deixado de gostar de jogar futebol. Se no início encantava a todos com sua alegria e sua paixão por entortar adversários com incrível habilidade, àquela altura o esporte já havia se tornado nada mais do que uma profissão, um serviço que não o desafiava mais e tinha o único objetivo de colocar novos milhões em sua conta bancária.

Se isso acontece com alguém como ele, com o mundo aos seus pés, o que dirá com a gente? Somos, como humanos, seres que mudam bastante durante o decorrer de uma vida. Adquirimos valores, acumulamos aprendizados, mudamos de opiniões, alteramos nossa visão de mundo. A pessoa que éramos há alguns anos não é a mesma que somos hoje – e provavelmente será diferente dentro de dez anos. Algo que antes nos atraía e nos inspirava pode muito bem tornar-se sinônimo de enfado e comodismo.

É natural. Infelizmente, porém, o padrão social nos impele a decidir muito jovens o que queremos fazer por toda a vida. Temos apenas 16, 17 ou 18 anos quando ingressamos na faculdade para começar a trilhar os passos da carreira a seguir. E, uma vez que essa locomotiva é posta em andamento, é muito difícil mudar o seu trajeto. O resultado é óbvio: milhões de profissionais frustrados e infelizes com as escolhas feitas, incapazes de encontrar em seus trabalhos uma fonte de satisfação e bem-estar pessoal.

Não que seja impossível mudar. São incontáveis os casos de gente que, decepcionada com os rumos de sua própria vida, tem coragem de dar uma virada total e priorizar sua felicidade em uma atividade nova – muitas vezes até com menor recompensa financeira. Mas não é fácil. Se qualquer mudança é difícil, o que falar de uma que exija a reestruturação de toda uma vida? É preciso coragem e, acima de tudo, certeza de que a nova escolha é a correta. E pouca gente tem a autoconfiança e a segurança para isso.

Fazer o que se gosta não é tão simples quanto parece. Quando isso acontece, no entanto, quando se descobre aquilo pelo qual se tem paixão, metade do caminho para o sucesso (pessoal e profissional) já está trilhado. Quando se gosta daquilo que se faz, a gente se dedica. Quando a gente se dedica, a gente se aperfeiçoa. E quando nos aperfeiçoamos, inevitavelmente crescemos até alcançar nossos objetivos.

Mais uma vez, o caminho não é fácil. Uma simples escolha errada pode custar anos de vida – quando não a totalidade dela. O próprio tempo também ajuda a causar o desgaste, como bem ilustra o caso do jogador citado no início do texto. Porém, uma hora percebemos que fazer o que se gosta não é um privilégio, mas uma necessidade. É fundamental à nossa existência e à busca pela felicidade. E, por mais que pareça, nunca é tarde para isso.

“Descubra o que você ama e deixe isso lhe matar”, escreveu Charles Bukowski. A segunda parte é fácil. Difícil é a primeira.

Silvio Pilau
Redator

 

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