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O lado bom do politicamente correto

By 1 de março de 2019 Sem comentários

 

O lado bom do politicamente correto

 

Por muito tempo, fui um contumaz crítico do politicamente correto. Condenava-o veementemente. Já expressei e escrevi mais de uma vez sobre o moralismo exagerado que estava acabando com a nossa sociedade, levando a restrições individuais absurdas, até mesmo de temas delicados como a liberdade de expressão.

Hoje, penso um pouco diferente. Talvez esteja mais sábio, talvez mais burro, talvez mais conservador, mas vejo o politicamente correto com um olhar tolerante. Mais do que isso, vejo-o como reflexo de uma transformação positiva no mundo em que vivemos.

Os detratores do politicamente correto afirmam que, atualmente, a sociedade ficou mais chata. Para usar um termo moderno, estamos cheios de “mimimi”. Há alguns anos, Os Trapalhões faziam piadas comparando o Mussum a macacos, e ninguém reclamava. Campanhas publicitárias objetificavam a mulher, e eram consideradas brilhantes. Homossexuais eram estereotipados em filmes e novelas, e todos aplaudiam.

O que antes era aceito sem problemas, agora gera polêmicas. O que antes era motivo de risada inocente, hoje é razão para revoltas.

Porém, ao contrário do que muitos pensam – e eu já estive neste grupo –, essa transformação não é necessariamente negativa. O que ela indica é que estamos mudando nossa forma de pensar. Estamos evoluindo como sociedade. Estamos dando um basta à banalização de atitudes desrespeitosas contra minorias historicamente relegadas a segundo plano. E isso é um bom sinal.

Se hoje há mais gente reclamando de uma piada que deprecia um ser humano pela sua orientação sexual, ISSO É BOM. Se hoje uma campanha publicitária pedindo para as mulheres nunca dizerem “não” aos homens gera revolta, ISSO É BOM. Se hoje não se pode mais entregar bananas a um negro como forma de piada, ISSO É BOM. Por mais que não exista a intenção escancarada de discriminar, atitudes como essas ajudam a propagar preconceitos que já deveriam estar erradicados de nossa convivência social.

O politicamente correto, quando dentro de limites, não é um passo atrás, mas à frente. É um símbolo de nosso crescimento como uma sociedade civilizada, capaz de respeitar diferenças e abraçar a multiplicidade. Criticá-lo, de certa forma, é querer voltar a uma época na qual a discriminação era vista como natural e que a intolerância imperava no cotidiano, embora não fosse percebida.

Claro que devemos tomar cuidado para não ceder tanto. Quando, há alguns anos, livrarias se recusaram a vender o livro “Memórias de Minhas Putas Tristes”, de Gabriel García Márquez, por exemplo, pelo simples fato de o título citar coloquialmente a profissão mais antiga do mundo, cometeram um excesso. Não podemos nos tornar uma sociedade pudica. Um pouco de subversão sempre é bem-vinda.

Mas a linha é tênue. E, se o caminho sobre ela for trilhado com consciência, o politicamente correto – quem diria? – pode ser mais benéfico do que se imaginava.

Silvio Pilau
Redator

 

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