Existe um aspecto da inteligência artificial generativa que talvez ainda esteja sendo pouco discutido. Ele não diz respeito à autoria, ao mercado de trabalho ou mesmo à qualidade das imagens produzidas. Tampouco se resume ao debate sobre o que é ou não é arte. A mudança parece ocorrer em outro lugar, mais discreto e talvez mais profundo. Ela diz respeito à forma como passamos a enxergar aquilo que nos arrebata o olhar.
Karl Friston propôs que o cérebro funciona como um sistema permanente de previsão. Antes mesmo de os sentidos concluírem seu trabalho, já formulamos hipóteses sobre o que esperamos encontrar. Richard Gregory desenvolveu essa ideia ao afirmar que a percepção não consiste em registrar passivamente a realidade, mas também em inferi-la. Nunca vemos apenas com os olhos. Vemos também com a memória (a individual e a coletiva), com a imaginação, com a experiência e com aquilo que esperamos ver.
Talvez seja justamente por isso que determinadas tecnologias transformem menos aquilo que somos capazes de produzir do que aquilo que nos tornamos capazes de perceber. A inteligência artificial passou a habitar nossas expectativas, espreitando por trás das portas e, silenciosamente, reorganizando a forma como nos aproximamos das imagens.
Basta observar o destino de qualquer imagem extraordinária que circule nas redes sociais. Antes que se pergunte o que ela comunica, que ideias articula ou que experiência estética propõe, surge quase automaticamente outra questão: isso foi feito por uma inteligência artificial? E a resposta importa menos do que a velocidade com que a pergunta aparece. A hipótese antecede a contemplação e, a antecedendo, acaba por moldá-la.
É compreensível que isso aconteça. Vivemos um momento em que a distinção entre o documental e o sintético se tornou incomodamente evidente, e a desconfiança passou a ser uma forma legítima de proteção. A ânsia de não sermos vítimas da grande trapaça da IA nos leva a submeter qualquer imagem incomum ao mesmo procedimento de autenticação. O problema talvez seja o preço que pagamos por essa blindagem. Ao tentar evitar o engano, começamos a nivelar experiências profundamente distintas pela mesma hipótese explicativa. Fotografias, pinturas, experimentações visuais, colagens, obras produzidas com inteligência artificial e obras produzidas sem ela acabam frequentemente reduzidas à mesma pergunta, como se a origem técnica esgotasse aquilo sobre o que sequer tivemos tempo de elaborar.
Walter Benjamin preocupou-se com o farmar da aura quando a obra de arte passou a ser infinitamente reproduzível. Seu problema, entretanto, ainda pressupunha a existência de um original. A inteligência artificial desloca essa questão para outro território. Ela já não depende necessariamente de um referente concreto, o que talvez nos obrigue a deslocar também a pergunta. Em vez de investigar apenas o que acontece com a obra, talvez seja preciso perguntar o que acontece com o observador quando a possibilidade permanente de uma origem algorítmica passa a anteceder qualquer experiência de contemplação.
Os gregos possuíam uma palavra para esse instante inaugural: thaumazein. Costumamos traduzi-la por maravilhamento, admiração ou espanto, mas nenhuma dessas palavras a esgota. Thaumazein designa a disposição de permanecer diante do extraordinário antes de reduzi-lo a uma explicação. Aristóteles afirmava que era desse estado que nascia a filosofia. Não do conhecimento, mas da disponibilidade para acolher aquilo que ainda não compreendemos.
Há um verso de Oswaldo Montenegro, em Lua e Flor, que me interessa: "Eu amava como amava o pescador, que se encanta mais com a rede que com o mar."
Sempre tive a impressão de que esse verso fala menos sobre a técnica do que sobre a atenção. O mar continua imenso. Continua misterioso. Continua capaz de despertar admiração. Nada nele diminuiu. O que muda é o lugar onde decidimos demorar o olhar. A rede que eu teço, na minha falibilidade humana, se torna uma maravilha nela mesma e passa a concentrar um interesse que antes pertencia à grandeza absoluta da natureza.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo. A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de criação para tornar-se também uma ferramenta de interpretação. Já não olhamos apenas para a imagem. Olhamos para a possibilidade de ela ter sido produzida por um algoritmo. A tecnologia deixa de ocupar apenas o processo criativo e passa a ocupar também o processo contemplativo.
Essa hipótese encontra um contraponto interessante em Gaston Bachelard. Para ele, uma imagem nunca termina naquilo que ela representa. Ela continua existindo dentro de quem a contempla, prolonga-se na memória, desperta associações inesperadas, reorganiza repertórios e amplia a experiência do mundo. Sua força reside justamente nessa abertura. Quando a primeira ação do olhar deixa de ser a de imaginar e passa a ser a de classificar, talvez algo desse potencial se enfraqueça. Seria tentador concluir que a inteligência artificial nos roubou essa capacidade de nos maravilharmos. Mas é mais honesto admitir outra possibilidade, a de que estejamos renunciando de bom grado a ela.
Em nome de uma necessidade perfeitamente legítima de não sermos ludibriados, começamos a trocar a contemplação pela segurança cartesiana de uma explicação imediata. A verificação antecede a experiência. A classificação substitui a abertura. A suspeita ocupa o lugar da admiração.
Se essa hipótese fizer algum sentido, então a questão deixa de ser tecnológica e passa a ser profundamente humana. O desafio do nosso tempo talvez não seja apenas distinguir imagens reais de imagens sintéticas, mas preservar em nós o thaumazein dos gregos.
Porque talvez nenhuma tecnologia seja capaz de nos roubar o que estivermos dispostos a preservar. E se um dia deixarmos de nos maravilhar, não terá sido uma derrota para a inteligência artificial mas sim a decisão deliberada de abdicar a uma das nossas faculdades mais profundamente humanas.