Nos últimos dias, devo ter lido e ouvido a palavra “inovação” mais vezes que meu próprio nome. Primeiro porque esse foi o tema de uma campanha muito bacana que fizemos na agência. Infelizmente para vocês, por se tratar de uma licitação, terei que mantê-la a sete chaves. E segundo porque passei a última semana em terras cariocas participando da Rio Innovation Week, uma das maiores conferências do planeta sobre tecnologia, comunicação e, obviamente, inovação.

Antes de falar um pouco sobre o que vi no evento, uma historinha rápida. Aconteceu nas etapas iniciais de criação da campanha que citei acima. Em uma agenda para avaliarmos a proposta que a equipe estava desenvolvendo, senti falta de alguma ideia diferenciada de mídia ou de alguma ação capaz de surpreender o público. Tínhamos um forte conceito de campanha, mas a estratégia de distribuição ainda estava bastante quadrada.

“Estamos dizendo que somos inovadores, mas não estamos mostrando isso na forma de entregar a mensagem”, comentei.

Alguém da minha equipe pontuou: “É que não temos verba para isso. Qualquer ideia de inovação que tivermos vai ser muito cara”.

Essa manifestação despertou um alerta no meu cérebro. Comecei a pensar: quantas pessoas associam o conceito de inovação unicamente a algo tecnológico? Tenho certeza de que, se fizermos uma pesquisa rápida na rua sobre o que é inovação, boa parte dos entrevistados vai ter a mesma percepção externada pelo profissional do meu time. A maioria provavelmente vai dizer que vê inovação como alguma ideia mirabolante com elementos futuristas ou como algum aparelho moderno e cheio de neón que ninguém nunca viu antes. Algo saído diretamente de um filme de ficção-científica hollywoodiano.

Essa percepção não poderia estar mais equivocada. A inovação não precisa estar, necessariamente, atrelada à tecnologia. Inovar é simplesmente pensar diferente. É fazer diferente. Inovar é oferecer ao mundo uma nova forma de olhar para algo que já vimos milhares de vezes. É oferecer outro caminho. É olhar para a esquerda quando todos olham para a direita. É juntar dois clichês para criar uma ideia inédita. Ou, como respondi para o time quando surgiu a fala sobre não termos verba para inovar: “Às vezes, um adesivo de dez reais com uma mensagem surpreendente em um local inesperado é mais inovador do que um aparelho tecnológico de cem mil reais.”

Eu poderia estar falando bobagem quando disse isso a ele, mas felizmente escapei dessa vergonha. E o que me dá certeza disso é todo o conteúdo compartilhado nos quatro dias da Rio Innovation Week. Sim, tinha por lá um estande com batalhas entre robôs, inclusive com locutor ao estilo Galvão Bueno narrando efusivamente os embates. Sim, a Inteligência Artificial foi um dos assuntos mais recorrentes dos painéis. Sim, havia tecnologias que pareciam saídas diretamente da mente peculiar de Nikola Tesla: o estande com raios cujos sons interpretavam músicas famosas sempre parava o evento. Mas os temas eram muito, muito mais abrangentes do que isso.

Da singularidade em buracos negros à criação do Rock in Rio, da inclusão de minorias no ambiente corporativo a como ser mais efetivo na educação de alunos, da imprevisibilidade do processo criativo a lições sobre liderança com um dos maiores gênios da história do futebol, a Rio Innovation Week deixou claro que inovação não é sinônimo de tecnologia. A tecnologia é uma ferramenta para a inovação, não a própria.

Precisamos lembrar que a tecnologia, como a conhecemos hoje, surgiu há pouco tempo na trajetória da humanidade. Mas a capacidade de inovar sempre esteve presente em nossa caminhada. O primeiro homem das cavernas que criou fogo batendo duas pedras uma na outra inovou. A tribo de caçadores-coletores que cansou de correr atrás do alimento todo dia e decidiu plantar também inovou. Charles Darwin, quando publicou uma teoria que contrapôs a doutrina religiosa ao mostrar que somos resultado de mutações genéticas que nos tornaram mais aptos a sobreviver no mundo natural, teve possivelmente a ideia mais inovadora da história.

É importante entendermos essa diferença, pois uma associação imediata e obrigatória entre inovação e tecnologia não é somente equivocada, mas perigosa. Ela pode enfraquecer a nossa capacidade e o nosso ímpeto de buscar o novo. E é exatamente nessa busca constante que mora a verdadeira essência da inovação.

Algo que, felizmente, está ao alcance de todos.